Como a tecnologia transformou o comportamento humano em mercadoria e por que precisamos recuperar nossa liberdade de pensar, sentir e escolher.
Por Osvandir Leal — Psicólogo Clínico Junguiano
Você já teve a impressão de que seu celular sabe o que você deseja antes mesmo de você decidir?
Já pesquisou um produto na internet e, minutos depois, começou a receber anúncios sobre ele em diferentes redes sociais? Ou percebeu que, após assistir a determinados vídeos, outros conteúdos semelhantes passaram a aparecer insistentemente, como se alguém estivesse conduzindo seus interesses?
Talvez você tenha pensado: “Que coincidência!”
Mas será que estamos realmente diante de coincidências?
E se aquilo que acreditamos escolher livremente estiver sendo, em alguma medida, influenciado por sistemas que conhecem nossos hábitos, preferências, fragilidades e desejos?
Essa é uma das questões mais inquietantes levantadas pela professora e pesquisadora Shoshana Zuboff, em sua obra A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder (2021).
Sua análise revela uma transformação profunda na relação entre seres humanos, tecnologia e poder econômico. Uma transformação que não se limita à maneira como consumimos produtos, mas alcança nossas emoções, relacionamentos, opiniões e decisões cotidianas.
Quando nossa experiência se transforma em mercadoria
Durante muito tempo, o capitalismo esteve associado à produção e à comercialização de bens e serviços. No século XXI, entretanto, consolidou-se uma nova lógica econômica: a exploração comercial de dados produzidos pelas experiências humanas.
Cada pesquisa realizada, cada vídeo assistido, cada publicação curtida, cada localização compartilhada e cada interação digital pode produzir informações sobre nosso comportamento.
Essas informações, quando coletadas e processadas, permitem identificar padrões, estimar interesses e prever determinadas ações.
Zuboff denomina capitalismo de vigilância essa lógica de apropriação da experiência humana como matéria-prima para a produção de dados comportamentais, posteriormente utilizados na elaboração de previsões comercializáveis.
É importante compreender que nem toda coleta de dados caracteriza, por si só, capitalismo de vigilância. O elemento decisivo está na apropriação de informações comportamentais para finalidades comerciais, frequentemente além daquilo que o indivíduo compreende ou efetivamente controla.
O problema, portanto, não é simplesmente a existência da tecnologia.
O problema começa quando nossa vida deixa de ser apenas vivida e passa a ser sistematicamente observada, interpretada e explorada economicamente por terceiros.
Da previsão à influência: a fabricação dos desejos
Imagine que determinada plataforma identifique que você costuma navegar pelas redes sociais quando está triste, ansioso ou solitário.
Por meio de padrões de comportamento, seus sistemas podem estimar momentos em que você está mais receptivo a certos conteúdos, produtos ou mensagens.
Isso não significa que a plataforma consiga conhecer integralmente seus pensamentos ou sentimentos. Significa, porém, que determinadas características de seu comportamento podem ser inferidas estatisticamente.
E aqui surge uma questão fundamental.
Se uma empresa consegue estimar quando você está mais propenso a comprar, permanecer conectado ou reagir emocionalmente a determinado conteúdo, ela também pode organizar o ambiente digital para aumentar a probabilidade de que você faça exatamente isso.
A fronteira entre prever comportamentos e influenciá-los torna-se progressivamente mais delicada.
Na perspectiva de Zuboff, o capitalismo de vigilância não se limita à observação. Seu desenvolvimento econômico também estimula a criação de mecanismos capazes de orientar comportamentos em direções comercialmente desejáveis.
A consequência é inquietante: nossas decisões podem continuar sendo experimentadas subjetivamente como livres, mesmo quando o ambiente em que decidimos foi cuidadosamente organizado para favorecer determinadas escolhas.
Não precisamos ser obrigados a fazer alguma coisa para sermos influenciados a fazê-la.
A economia da atenção e o aprisionamento pelo olhar do outro
Vivemos em uma sociedade na qual a atenção humana se tornou um recurso extremamente valioso.
Quanto mais tempo permanecemos conectados, maiores podem ser as oportunidades de exposição a anúncios, coleta de dados e interação com conteúdos comercialmente relevantes.
Por isso, muitos ambientes digitais são desenvolvidos para estimular a permanência, o retorno frequente e o engajamento.
Notificações, recomendações personalizadas, reprodução automática de vídeos e sistemas de curtidas podem funcionar como estímulos que reforçam determinados hábitos.
Sob a perspectiva psicológica, essa dinâmica merece atenção especial.
O indivíduo pode começar a organizar sua rotina em função das respostas que recebe nas plataformas. A satisfação de compartilhar uma experiência passa, em alguns casos, a depender da quantidade de visualizações, comentários e curtidas.
Gradualmente, uma pergunta ganha espaço na vida psíquica:
“O que eu realmente desejo?”
E outra começa a substituí-la:
“O que preciso mostrar para ser visto, aceito e admirado?”
Nesse movimento, a validação externa pode assumir uma importância desproporcional na construção da autoestima.
O resultado pode ser uma relação marcada pela comparação social, pela necessidade de reconhecimento e pelo medo de não corresponder às expectativas alheias.
A persona digital e o distanciamento de quem realmente somos
A Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung oferece uma contribuição importante para compreender esse fenômeno.
Jung desenvolveu o conceito de persona para descrever a dimensão da personalidade por meio da qual nos apresentamos ao mundo e desempenhamos nossos papéis sociais.
A persona é necessária à convivência humana. Entretanto, quando o indivíduo se identifica excessivamente com ela, pode afastar-se de aspectos importantes de sua própria individualidade.
Nas redes sociais, essa dinâmica encontra um cenário particularmente favorável.
É possível construir uma imagem cuidadosamente selecionada, na qual aparecem apenas conquistas, viagens, relacionamentos felizes, corpos idealizados e momentos aparentemente perfeitos.
Aquilo que não corresponde à imagem desejada tende a permanecer oculto.
O sofrimento, as dúvidas, as frustrações e as contradições humanas podem ser excluídos dessa representação.
O risco psicológico não está em publicar uma fotografia bonita ou compartilhar uma conquista. Está em transformar a aprovação dessa imagem em condição indispensável para sentir-se valorizado.
Nessa situação, a pessoa pode começar a viver para sustentar uma identidade digital, em vez de utilizar a tecnologia como instrumento de expressão de sua identidade real.
Sob uma leitura junguiana, poderíamos dizer que ocorre um fortalecimento da identificação com a persona, acompanhado de um possível distanciamento da vida interior.
É importante esclarecer que essa associação entre persona e comportamento digital constitui uma interpretação psicológica complementar, não uma tese formulada por Zuboff.
Quando os algoritmos participam da construção de nossas opiniões
O capitalismo de vigilância também levanta questões importantes sobre a maneira como construímos nossas convicções.
Os sistemas de recomendação selecionam conteúdos com base em diferentes sinais, entre eles interesses anteriores, interações e padrões de consumo de informação.
Esse processo pode facilitar o acesso a assuntos relevantes. Entretanto, também pode favorecer a exposição repetida a determinadas perspectivas, dependendo de como os sistemas são desenvolvidos e utilizados.
Quando alguém consome predominantemente conteúdos que confirmam suas crenças, pode encontrar menos oportunidades de confrontá-las criticamente.
Em determinados contextos, isso contribui para o fortalecimento de visões polarizadas, hostilidade contra grupos divergentes e interpretações simplificadas de problemas complexos.
Na Psicologia Analítica, Jung chamou a atenção para os perigos da perda de diferenciação individual diante de movimentos coletivos e identificações inconscientes.
A aproximação entre essa reflexão e os ambientes digitais contemporâneos permite formular uma pergunta:
Até que ponto nossas opiniões representam uma reflexão pessoal e até que ponto reproduzem ideias continuamente reforçadas pelo ambiente informacional que frequentamos?
Não se trata de afirmar que os algoritmos determinam automaticamente o pensamento humano. As pessoas conservam capacidade crítica, e os efeitos dessas tecnologias variam conforme o contexto.
Entretanto, reconhecer que nossas escolhas informacionais são influenciadas pela arquitetura das plataformas é um passo importante para preservar a autonomia.
O paradoxo da conexão: cada vez mais conectados, nem sempre mais próximos
As tecnologias digitais ampliaram extraordinariamente nossas possibilidades de comunicação.
Hoje podemos conversar com familiares distantes, estudar, trabalhar, buscar informações e estabelecer relações independentemente das fronteiras geográficas.
Esses benefícios são reais e não devem ser desconsiderados.
O paradoxo surge quando a conexão permanente começa a competir com a presença emocional.
Podemos estar fisicamente ao lado de alguém e, simultaneamente, manter nossa atenção concentrada em uma tela.
Podemos acumular centenas de contatos e ainda experimentar solidão.
Podemos acompanhar diariamente a vida de inúmeras pessoas sem desenvolver relações verdadeiramente íntimas com elas.
A questão não é quantas conexões possuímos, mas a qualidade psicológica dos vínculos que construímos.
Quando a busca constante por estímulos digitais substitui momentos de silêncio, convivência e reflexão, podemos perder oportunidades importantes de elaborar nossas próprias experiências.
E uma vida interior pouco escutada pode tornar-se cada vez mais dependente dos estímulos exteriores.
O que acontece com nossa saúde mental?
Seria inadequado afirmar que o capitalismo de vigilância, isoladamente, provoca ansiedade, depressão ou outros transtornos psicológicos.
A saúde mental é influenciada por múltiplos fatores biológicos, psicológicos, sociais e culturais.
Entretanto, determinados mecanismos associados aos ambientes digitais podem contribuir para condições de vulnerabilidade emocional, especialmente quando envolvem uso problemático, comparação social intensa, interrupções frequentes, exposição a conteúdos nocivos ou prejuízos ao sono e às relações interpessoais.
Entre os aspectos que merecem atenção estão a dificuldade de desconexão, a sensação de urgência permanente, a busca excessiva por validação externa e o desconforto diante da ausência de estímulos.
Há ainda uma dimensão menos evidente: a redução dos espaços de recolhimento.
Para a Psicologia Analítica, o desenvolvimento da personalidade exige contato com a própria vida psíquica, reconhecimento de conflitos internos e elaboração consciente das experiências.
O processo de individuação, conceito central da obra de Jung, pressupõe justamente um movimento de diferenciação, pelo qual a pessoa busca tornar-se mais consciente de sua singularidade.
Mas como escutar a própria interioridade quando praticamente todos os momentos de silêncio são preenchidos por notificações, vídeos, mensagens e recomendações?
Uma sociedade que disputa continuamente nossa atenção também pode dificultar nosso encontro conosco mesmos.
A liberdade que precisamos recuperar
A crítica de Zuboff não deve ser confundida com uma rejeição generalizada da tecnologia.
A internet, os smartphones e as redes sociais proporcionaram avanços extraordinários no acesso à informação, à educação, ao trabalho e à comunicação.
O desafio consiste em questionar os modelos econômicos e as estruturas de poder que organizam parte desses ambientes.
Recuperar nossa autonomia exige ações individuais e coletivas.
No plano pessoal, precisamos desenvolver maior consciência sobre nossos hábitos digitais, questionar os conteúdos que consumimos e compreender que nossas interações podem alimentar sistemas comerciais de previsão comportamental.
Também é necessário estabelecer limites saudáveis de conexão, preservar momentos de convivência presencial e cultivar atividades que não dependam da aprovação pública.
No plano coletivo, são fundamentais a transparência no tratamento de dados, a proteção da privacidade, a responsabilização das empresas e o debate democrático sobre os limites da exploração comercial do comportamento humano.
Afinal, a liberdade não se resume à possibilidade de escolher entre alternativas disponíveis.
Ela também depende das condições em que essas alternativas são apresentadas e da capacidade de compreender as influências que atuam sobre nossas decisões.
Considerações finais: quem está conduzindo sua vida?
Talvez uma das grandes contradições do século XXI seja esta: nunca tivemos tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, precisamos fazer um esforço tão grande para proteger nossa atenção e nossa autonomia.
O capitalismo de vigilância nos convida a refletir sobre algo que ultrapassa a privacidade digital.
Ele nos obriga a questionar quem se beneficia de nossos comportamentos, quem organiza os ambientes nos quais tomamos decisões e quais interesses disputam nossa atenção.
Pela perspectiva da Psicologia Analítica, essa reflexão encontra um significado ainda mais profundo.
O desenvolvimento psicológico envolve a possibilidade de reconhecer nossas influências inconscientes, confrontar padrões automáticos e construir uma relação mais consciente com o mundo.
Isso não significa alcançar uma liberdade absoluta de influências — algo provavelmente impossível —, mas ampliar nossa capacidade de reconhecê-las e decidir como responder a elas.
Por isso, antes de abrir novamente uma rede social, talvez valha a pena fazer três perguntas:
Estou entrando porque realmente quero ou porque desenvolvi o hábito de fazê-lo?
Estou buscando algo importante para mim ou apenas respondendo a mais um estímulo?
Sou eu quem está utilizando a tecnologia ou estou permitindo que ela organize grande parte da minha vida?
O futuro humano não depende de abandonarmos a tecnologia. Depende de conseguirmos utilizá-la sem entregar a ela, silenciosamente, nossa capacidade de pensar, sentir e escolher.
Porque uma vida verdadeiramente nossa não pode ser construída apenas com aquilo que os algoritmos aprenderam a desejar por nós.
Referências bibliográficas
ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.
JUNG, Carl Gustav. Dois escritos sobre psicologia analítica. Petrópolis: Vozes. Obras completas, v. 7.
JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes. Obras completas, v. 7/2.
Nota editorial: as interpretações sobre persona, individuação e vida psíquica são aproximações propostas a partir da Psicologia Analítica de Jung. Não devem ser atribuídas diretamente a Shoshana Zuboff.
