Lembro-me de que, quando criança, assistia alguns desenhos animados ou alguns filmes de Jerry Lewis que sempre traziam um bocado de boas gargalhadas devido às muitas confusões que faziam parte do roteiro.
No meu mundo de criança e em frente a uma realidade difícil com muitas privações, aquela velha televisão valvulada, com palha de aço na antena e que havia sido comprada em segunda mão, me mostrava um mundo inteiro em preto e branco. Era uma janela imaginária para um mundo muito diferente do meu e repleto de aventuras, diversões e de sonhos.
Quantas vezes andei em montanhas russas, viajei de carro, de barco ou avião e vivi as mais diferentes aventuras sem jamais ter saído da pequena sala do casebre onde morávamos…
Uma das cenas mais clássicas era aquela em que um grupo em formação ouvia a voz de um comandante ou um chefe que descrevia a necessidade de alguma missão árdua e, após descrever a tarefa em si, pedia para que, quem fosse o infeliz voluntário para a missão, desse um passo à frente.
Via de regra, havia alguém que estava distraído (o personagem de Jerry Lewis, na maioria das vezes), sem prestar muita atenção ao que vinha acontecendo e ficava parado enquanto todos os demais davam um passo para trás. No final das contas, o pobre infeliz, distraído, acabava se “voluntariando” para a missão sem sequer se mexer da sua posição, enquanto todos os outros se safavam do problema. A responsabilidade passava a ser única e exclusivamente daquele sujeito que, na sequência, se envolvia nas mais engraçadas confusões sob pena de algum castigo no caso de fracassar. Mas, no final, quase sempre conseguia realizar a tarefa ou missão a ele designada, apesar de todas as trapalhadas. Em alguns episódios, conseguia até obter algum ganho pessoal com isso, como um presente ou um prêmio em dinheiro, uma namorada ou, talvez, alguma medalha.
Conto este pequeno relato das minhas recordações infantis para fazer comparações com outras facetas da vida em que somos chamados a “dar um passo à frente”. É muito comum e, até certo ponto, compreensível que as pessoas se sintam intimidadas diante das incertezas da vida, quer sejam pessoais ou laborais, ficando mais propícias a “dar um passo atrás” esperando que algum distraído não se mexa e acabe por ser o “feliz voluntário” da difícil missão.
Por outro lado, outras pessoas são mais ousadas e apesar de seus medos, entendem que dar um passo à frente é necessário, especialmente, em momentos de crise e se colocam na posição de enfrentar os obstáculos que se apresentam, apostando muito mais nos benefícios que existem além da montanha do que nos sacrifícios que serão necessários para chegar do outro lado.
É imprescindível que, quem precisa liderar o próprio destino, tenha em si mesmo esta dose de ousadia e seja o protagonista da mudança, da transcendência ao obstáculo e que sirva de exemplo a todos aqueles que tendem a ser mais reticentes em épocas de incertezas inerentes a todas as crises.
Importante lembrar que, para ser um propulsor de mudanças, um estimulador de pessoas, um agregador de esforços e resultados, tal sujeito não pode ser aquele que se “voluntariou” por distração. Se assim o fizer, se colocará numa posição delicada de tentar agregar esforços em situações nas quais, ele mesmo, não desejaria estar.
Outrossim, este sujeito precisa ter a convicção do “passo à frente” se colocando em posição de protagonista, não por acaso, mas por escolha.
No que diz respeito a mim, posso dizer que na aventura da vida, enfrentei diversos momentos em que estando em formação junto a outras pessoas fui convidado a dar um “passo à frente”.
Em algumas ocasiões, dei “um passo atrás… Já em outras fui o “distraído”… Em várias outras, por escolha própria, dei “um passo à frente”.
Em quaisquer dos casos acertei e errei. Sim, porque “dar um passo atrás” pode ser considerado um acerto, pois não me expondo a riscos, não há como cometer erros.
No entanto, jamais me arrependi de ter dado o verdadeiro “passo à frente”, mesmo nas vezes em que não fui bem sucedido (mesmo que tenham sido a minoria das vezes), porque em todas as oportunidades que tive de me colocar na posição de protagonista, tirei lições e aprendizados que me serviram para o resto da vida.
Hoje, mais maduro, entendo que “dar um passo à frente” jamais pode ser motivo de prejuízo. Na pior das hipóteses, as incertezas e sucessos nos ensinarão “como não fazer algo” para que possamos evitar a repetição do erro. Na melhor delas, seremos pioneiros da mudança, formadores de opinião e incentivadores de outras pessoas.
E por tudo que aqui escrevi é que afirmo que sempre estou disposto a “dar um passo à frente” nos momentos em que mais percebo que posso ser útil.
E você? Está disposto a dar um passo à frente?